A sorte de um amor (pouco) tranquilo!


Outro dia olhei para nós
-em meio a tantos laços e esse pequeno emaranhado de nós-
E me veio Cazuza cantando
Sobre a sorte de um amor tranquilo
-daqueles só com riso, com cafuné e cochilo-
E, sabe? Eu não sei bem se é a nossa cara
Não sei se isso pode ser a gente,
Por mais que se insista,
Por mais que se tente
Mas fiquei pensando que seria bom
Se a gente fosse esse amor tranquilo
Com sabor de fruta mordida
Se a gente fosse amora colhida,
num saco cheio, com pelo menos meio quilo
Se a gente fosse manga madura
Com muito suco e pouco fiapo
Se a gente fosse zero briga e muito papo
Se a gente soubesse engolir mais sapo
E se a gente não implicasse
Com a forma do outro de dobrar guardanapo
Sim, sim era mesmo bom ser esse amor tranquilo
Balançando devagar, deitado na rede
Enrolando cabelos entre os dedos
Transbordando certeza, tão livre de medo
Era bom ser brisa fresca de manhã cedo
Era bom que não houvesse nenhum passado
Que não houvesse nenhum segredo
Mas há, mundo afora, quem seja assim?
Ser só rede, canção, fruta e brisa?
Sem sede, cansaço e alguma briga?
Será que há vidas conjuntas só de melodia
Da mais pura e certa garantia
Sem disputas por causa da pia
Por causa da visita da tia
Do atraso no fim do dia
Da água que está sempre muito quente, muito fria
Será que não haveria um certo tédio?
Nessa overdose de calmaria
Contra a qual não há remédio?
Eu não sei,
Porque continuo pensando na fruta mordida
Em matar a sede na saliva
E em ser todo o amor que houver nessa vida
Em ser seu pão,
Ser sua comida
Do jeitinho que a letra diz
Parece mesmo um esquema feliz
Mas ali, adiante, ela até lembra mais a gente
Falando em céu e inferno
Em mel e ferida
Nossas altas temperaturas no inverno
Nosso riso na volta, nossa pressa na ida
Ele fala em ser artista no convívio
E isso a gente sabe:
Ser sufoco e ser alívio
Ser o olho do furacão
Ser o sol em tarde de verão
Ser amor tormento,
Ser amor tranquilo
Ser nada além do amor da vida
Ser, sim, fruta mordida
Que pode ser azeda que nem limão
Que nem kiwi fora da estação
Mas que às vezes é pêssego
Gordo e doce, pingando no chão
Talvez a gente não seja
Só rede, só sossego e cochilo sereno
Porque, vira e mexe, o que somos
É pequena dose de veneno
Veneno que nunca mata,
Que nunca morre,
Que só sabe ser tão feroz
Quanto queimação e azia
Esse tal veneno anti monotonia
Somos veneno e somos antídoto
Eu com você, você comigo
Entre trapos e beijos
Entre isso e aquilo
Talvez a turbulência
Seja o nosso sinal de que, enfim,
Esse é o nosso amor tranquilo.
Por: Ruth Manus

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